De onde vem nosso alimento?

Texto: Cláudia Chagas
Fotos: Adriano Schimit e Cláudia Chagas

Estação de trem de Queimados, terça-feira, pela manhã. Um grupo de barraquinhas se destaca no tumulto provocado pelo vai e vem de passageiros e passantes. É a feira da Roça de Queimados, antiga conhecida dos trabalhadores do Núcleo Estadual do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro (NEMS/RJ).

Por questões de logística, principalmente a falta de transporte, o grupo esteve afastado do núcleo, mas está de volta com força total. Em 17 de agosto, eles iniciaram esta nova etapa, em que a feira agroecológica irá acontecer sempre na segunda segunda-feira de cada mês.

E eles estavam ansiosos para voltar. “Eu queria reiniciar as atividades em setembro, mas eles insistiram retomar já este mês”, comenta Fabiana Fernandes de Campos, coordenadora da Comissão de Sustentabilidade do NEMS/RJ. E não é à toa. O público do núcleo é importante para esse pessoal que tem na agricultura familiar um reforço importante na renda.

Em funcionamento desde 2010, as terças e quintas, na estação de trem de Queimados, a Feira da Roça é regulamentada por um decreto municipal. Os feirantes são os próprios agricultores, que quando não estão comercializando sua produção, estão com a mão na terra, cultivando legumes, frutas e hortaliças livres de agrotóxicos ou adubos químicos.

Fabiana Campos, do NEMS/RJ, e a feirante Sumaya.

“Combato pugão, com detergente neutro e água de cinza”, garante a musa da feira, Maria Auxiliadora, de 74 anos. Costureira aposentada, ela cultiva ervas, frutas, aipim e ainda prepara farinha que vende na feira e para a vizinhança de sua propriedade.

Esse conhecimento foi obtido em cursos de capacitação oferecidos pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro – EMATER –RIO, responsável também por atestar que os produtos são agroecológicos.

Orgânicos ou agroecológico?

“Todo produto agroecológico é orgânico, mas nem todo produto orgânico é agroecológico”, afirma, Mariella Rosa, agrônoma da EMATER. Segundo ela, a definição de agroecólogico é mais ampla, pois envolve conceitos de mais diversidade e menos dependência de insumos externos.

Mariella Rosa, da EMATER: “Todo produto agroecológico é orgânico, mas nem todo produto orgânico é agroecológico”.

Este tipo de produção também está intimamente ligado à agricultura familiar e a permanência no campo, como avalia o apicultor Sérgio Marques de Miranda: “A agricultura familiar fixa o homem na terra”. Sérgio esteve em todas as edições da feira realizada no NEMS/RJ. Na mais recente, realizada no dia 14 de agosto, perto das 11h, ele já tinha vendido todo o mel e derivados que havia trazido.

Alimento e parceria saudáveis

“Tenho essa saúde toda porque como tudo fresquinho, que eu mesmo planto”, diz Assis José Soares, de 79 anos. Produtor rural há 30 anos, ele sustenta a família com a agricultura. Como muitos dos participantes da Feira da Roça, Assis nunca esteve no NEMS, mas isso não quer dizer que seus produtos não cheguem as nossas sacolas. Com dificuldades de transporte, ou mesmo em função da labuta na lavoura, ele não pode se deslocar para o centro do Rio e conta com os colegas de feira para trazer sua produção à Rua México.

O mesmo acontece com Eraldo Ferreira de Souza, aposentado que complementa sua renda com uma produção de feijão de corda, aipim e batata. Ele se orgulha em cultivar e colher tudo sozinho, em um terreno de 15 mil m2  de terra plantada.

A jovem Juciara Silva de Jesus, por sua vez, destaca um diferencial nos fregueses do NEMS. “Lá no Centro, as pessoas reconhecem mais a importância de não se utilizar produtos químicos”.

Diversidade

Carlos José apresenta produtos derivados de rã

Doces variados na banca de Rosângela

Juciara e Assis destacam a qualidade dos produtos agroecológicos

Carlos José é novo na Feira da Roça e no NEMS. Na terça-feira, 08 de agosto, ele expunha sua interessante produção de derivados de rã, como óleo, farinha e creme para o cabelo. Em outra linha, ele, oferece, mediante encomenda, queijos artesanais de leite de vaca.

Menos exótico, mas com apelo incontestável, os doces de Rosângela Mangili fazem sucesso seja em Queimados, seja no Rio. A agricultora e doceira enfatiza que suas iguarias são feitas em tacho de cobre com matéria prima orgânica, produzida em seu sítio.. Sua produção impressiona pela diversidade: frutas cristalizadas, doces e compotas de mamão, carambola, jaca, laranja da terra, maracujá e abóbora, entre outras.

Claudino: “Só dá para saber o que vai estar em cada banca no dia da feira”.

Eraldo de Souza tem na agricultura uma complementação de renda

Sérgio Miranda: “A agricultura familiar fixa o home na terra”.

A diversidade da agricultura ecológica e familiar se reflete na banca do feirante. Por ser um processo produtivo que respeita os ciclos da natureza, é quase impossível se prever o que vamos encontrar na próxima edição. Claudino Nicolau Alves, coordenador da Associação da Feira da Roça de Queimados, justifica: “Depende da colheita. Só dá para saber o que vai estar em cada banca no dia da feira”.

Mas, como a agroecologia é sobretudo democrática, a feira do NEMS/RJ recebe também outros feirantes com certificação de orgânicos, como Sumaya Bezerra de Oliveira, que participa do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas e comercializa bolos e doces sem lactose e sem glúten.

A próxima feira de produtos agroecológicos no NEMS/RJ acontece no dia 11 de setembro.


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